segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A falta que faz o ócio

Na sociedade atual há todo um sistema organizado em torno da produção e refinamento do conhecimento técnico e científico, mas falta algo muito importante para seu desenvolvimento: o ócio.

Em todas as sociedades antigas, sempre houve a existência de um grupo de indivíduos cuja principal função era não fazer "nada". A maior vantagem era a de que estes indivíduos tinham tempo para pensar em questões que os indivíduos comuns - motivados e pressionados pelo tempo e pela produtividade e presos em rotinas muito bem delineadas - não conseguiam enxergar.

Eram os filósofos, matemáticos e até mesmo os inventores (no estilo Professor Pardal) em geral que, graças ao tempo livre e à formação muitas vezes autodidata, conseguiam enxergar relações entre coisas que as pessoas comuns não conseguiam. É a chamada ciência pura, que dá base e direciona o progresso técnico posterior.

Hoje, os acadêmicos em geral são pressionados para a produção em massa de artigos muito bem fundamentados para ganharem espaço e poderem pesquisar nos melhores centros de pesquisa e ensino. Se percebe, muitas vezes, que a falta de tempo leva a erros ou a omissão de informações importantes num artigo. A formação profissional também direciona o pensamento dos recém formados de hoje. Muitos não são capazes de enxergar relações além daquilo que lhes foi ensinado, embora a ciência não seja um conjunto de hipóteses acabada e esteja sempre em constante evolução.

A busca pelo sucesso profissional e pelo dinheiro é o motivo pelo qual os cursos de ciência "pura", como matemática, física e filosofia, não sejam mais tão procurados pelos estudantes. Melhor estar num curso mais voltado para o mercado, pensam eles. No entanto essa atitude priva a sociedade de saltos científicos motivados pela reflexão profunda e livre de pré-conceitos.

O ócio, hoje visto como algo maléfico ao desenvolvimento da sociedade e associado aos mendigos e vagabundos, nada mais é do que parte da auto reflexão que todo povo deve fazer durante o seu processo de evolução. A separação entre a ciência pura e a tecnologia e o incentivo ao pensamento livre provocam mudanças estruturais benéficas na sociedade. Uma sociedade que não incentiva seus "pensadores" corre o risco de se desenvolver em direção a um beco sem saída, na medida em que as inovações "residuais", fruto dos grandes paradigmas do passado e presas a trajetórias rígidas, vão se esgotando.

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