O que o Pré-sal representará para o Brasil?
Essa dúvida permeia a cabeça daqueles preocupados com o futuro do nosso país. Existem vários casos de países que construiram verdadeiras oligarquias em torno do petróleo, onde a população praticamente não sentiu os efeitos benéficos do ouro negro. Também podemos encontrar exemplos de países onde a combinação de gestão responsável e desenvolvimento industrial possibilitaram um ganho em termos sociais e economicos devido à exploraçao desse recurso natural.
Alguns dizem que tudo depende da boa vontade dos nossos políticos, mas acho que a questão é muito mais complexa. Primeiro, porque tudo irá depender de como o petróleo será utilizado nos próximos anos, se continuará sendo a base energética mundial ou se será substituido por outra fonte (hidrogênio, energia atômica ou solar, etc.). A química industrial garante que ainda seremos dependentes do petróleo para a fabricação de matérias primas, lubrificantes, plásticos e outros produtos, mas se ele for substituido por outra fonte energética em veículos e usinas energéticas, com certeza o preço do petróleo não compensará o investimento que está sendo feito para a exploração da camada pré-sal brasileira. Isso significa que o Brasil está apostando que o preço do petróleo se manterá constante nas próximas décadas, quando tudo indica que a tendência é de queda acentuada. A possibilidade de não se encontrar petróleo economicamente explorável também existe, como já aconteceu em dois campos perfurados pela Exxon e BG.
Além desse fator "exógeno", não se pode esquecer da gestão dos recursos. Na minha opnião, caso não haja uma mudança organizacional na Petrobrás e nas futuras "estatais do petróleo", o pré-sal poderá acabar como mais um instrumento de manipulação política entre os partidos (e seus coronéis), como já acontece com cargos, royalties e concessões.
Segundo a revista "The Economist", o Brasil tem historicamente um perfil "gastador", com taxa de poupança baixa e gastos elevados. A entrada dos recursos do pré-sal pode representar uma oportunidade do país reverter esse perfil e fazer os investimentos necessários, principalmente em infra-estrutura social e logística. Por outro lado, também pode representar apenas um "bico" para cobrir gastos excessivos que já são praticados pelo governo.
Além de todos esses fatores, posso citar uma grande preocupação dos economistas, a chamada dutch disease, ou doença holandesa, que pode ocorrer quando um país descobre uma grande fonte de recursos naturais e consegue assim manter sua balança comercial em situação de superávit, mas ao mesmo tempo deixa de realizar investimentos estruturais importantes (principalmente em tecnologia, indústria e logística) para se tornar competitivo do ponto de vista industrial e tecnológico. Em outras palavras, significa que as industrias passam a ter uma participação menor na geração de renda da economia, que passa a depender das suas "vantagens comparativas" provenientes dos recursos naturais. Isso é particularmente perigoso, pois a economia fica "refém" de preços primários instáveis, e pode facilmente entrar em recessão (a queda dos preços do café durante a crise de 1929 arrasou a economia brasileira, cujo principal produto de exportação era o café).
Enfim, pode-se dizer que o Brasil está fazendo uma aposta bastante arriscada, que dependerá de fatores endógenos e exógenos complexos e muitas vezes fora do controle do governo. A implementação do programa do pré-sal está sendo votada com urgência, pois representará um triunfo para o governo nas eleições do próximo ano. No entanto, os governantes devem ter em mente que se trata de um programa complexo e de longo prazo, que deveria ser pensado com mais calma antes de ser colocado em prática. Pelos riscos envolvidos, possivelmente o pré-sal pode representar mais um obstáculo do que uma alavanca ao desenvolvimento do país.
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